de Zangareio

Flávio de Araújo

Homem consertando rede

Homem consertando rede
agulha na mão
rede pendurada no prego.
Homem consertando rede
pensa na importância do remendo
imagina que tipo de peixe fugiria
por aquele buraco.
Homem consertando rede
conserta seu mundo.

Homem sério
enche a agulha com linha vermelha
com total habilidade
espanta o borrachudo
cospe o náilon mascado
dá palpites sobre o tempo que tanto acertava.
Ainda é respeitado quando fala que chove
quando fala que vai ventar.

Homem consertando rede
não resmunga a vida
malha pela falta de peixe
os grandes barcos de arrasto.

Homem consertando rede
conta histórias de pescador
com tamanha sinceridade
que nem parece pescador.

Homem consertando rede
parece homem feliz, distante
vai medindo a braçadas seu silêncio,
sua vontade de viver.

Homem consertando rede
e somente agora, para mim,
meu pai é apenas um homem
que conserta sua rede.





O corpo que flutuava

Um corpo flutuava no mar de azeite
e foi essa a maior lembrança de sua pouca juventude.

Não era uma carcaça de navio
nem era uma parte da floresta
que havia se desprendido para o mar.
Mas a sólida matéria que um dia Deus soprou
o Seu espírito.

Estava vestida de cinza como a escura borrasca do céu.
No longuíssimo cabelo se apinhavam crustáceos
de mil cores e sua pele mantinha a nitidez
de mulher cuidada com especiarias
mas não havia beleza alguma.

A face dos pescadores estava mais salgada,
feito o peixe que salgavam, pois escorria de seus olhos
indo parar em suas bocas rachadas, um líquido
que lembrava o gosto de salmoura.
E em suas cabeças o incessante clamor,
pelo poder do sangue de Jesus.

Era um corpo de mulher.
Era o que se sabia.
As vagas do mar a puxavam para uma dança
sem música.
Não aparentava madureza
nem sinal que a identificasse.
Só se ouvia meu Deus!
Várias vezes meu Deus!
Meu Deus!

Era um corpo de mulher que flutuava
e ela nem fazia parte das coisas do mar.
Era alguém em quem se procurava uma semelhança
um nome, uma vontade de morte.

O mar de almirante se fez tormenta.
Veio o céu coberto de fel dos peixes.
O velho Marçal secava sargos
no varal de bambu gigante.
Uma revolução explodia naquele ano de 64.

E meu avô à luz de uma lamparina a querosene,
sempre indagando aos netos
a sabença da história do corpo que flutuava.
Era uma história que estávamos velhos de saber
mas sempre dizíamos que não sabíamos.

E ele contava a mesma história
que há tempos se contava,
que por tempos deixava nossas cabeças fermentadas.

Era um corpo de mulher que flutuava num mar de azeite.
Essa era a maior lembrança da pouca juventude de meu avô.





Ninguém planta peixe no mar

Puxa a rede, pescador.
Para cobrir de seda azul
a mulher que ora no cais.
Pra pagar os cadernos dos meninos.
Pra não ver a cara virada
do seu Dito da venda.

Separa o peixe, pescador.
O menor, que voltará amanhã graúdo,
do maior que pretejará
a nova frigideira da madama.
Também o siri que masca a malha,
do camburu com seus dentes de navalha.

Gela no porão, pescador,
onde o ar cimenta de frio
tuas mãos insistentes,
os peixes de olhos brilhantes
e sem pálpebras.
Não tema o chão de água sob os pés
pois dele brota a semente
que não plantaste.

Onde vinga sua destreza
justiça se dará por tua fé.

Veja as nuvens que correm
pelo sopro de Deus.
As praias dominadas por
placas proibitivas.
O especulador imobiliário
com seu sorriso de lagarto.
O plástico e o alumínio
perseguidos pelos catadores.
As bitucas de cigarro que não matam
as tartarugas de edema.
A ausência de muitas espécies,
o óleo caro
e o gelo que derrete fácil.

Puxa a rede, pescador,
é tua sina.
Como alguém que doma
um cavalo pela crina.